Exemplo de entrevista:
1 setembro 2008
Depois de começar no jornalismo trabalhando em rádios – Bandeirantes e Gaúcha -, Clarice Esperança rumou para a mídia com a qual mais adaptou-se: o jornal. Trabalhou doze anos no jornal Zero Hora, de 1992 a 2004. Lá, esteve em praticamente todas as editorias, como repórter, editora e chege de reportagem. Saiu de ZH para voltar a estudar. Fez mestrado em História e lecionou na Faculdade de Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Aproveitamos para agradecer nossa entrevistada. Ela é responsável direta por esse blog. Foi na cadeira ministrada por ela que começamos, e sua idéia de os alunos criarem blogs foi uma das grandes sacadas de todos esses semestres de faculdade. Valeu pelo estímulo, Clarice.
Jornalismo B – Qual a função do Jornalismo, pra ti?
Clarice Esperança – Ah não, pelo amor de deus… [risos]
Jornalismo B – Já entrando de sola…
Clarice – Ah, não sei, não tenho a mínima idéia qual seja a função do Jornalismo. Acho que depende, historicamente tem funções diferentes. Agora, pra mim, eu não compartilho de uma visão idealista que acha que o Jornalismo tem que… Deixa eu pensar, peraí. Depois vocês editam isso. Ai, que coisa complicada. Assim, eu não tenho uma visão muito idealista no sentido de achar que o Jornalismo vai mudar a sociedade. E não acho que seja a função do Jornalismo mudar a sociedade. Porque ele não é constituído assim. Mas eu acho interessante o Jornalismo como manifestação do ser humano cultural porque ele é uma prática totalmente contraditória. É uma prática criada pra alicerçar uma sociedade burguesa capitalista, o ideário, toda aquela coisa de liberdade, de “nós, burgueses, sabemos, nós temos a visão da sociedade” e tal, essa coisa meio iluminista. Mas ao mesmo tempo, e essa é a grande contradição, e que é interessante, o Jornalismo é uma força desestabilizadora. Então mesmo quando a gente vai ver… Todas as ditaduras, a primeira coisa que elas fazem é cercear a imprensa, mesmo quando essa imprensa às vezes é alinhada com a ditadura, como ocorreu por exemplo em 64. Tinha uma imprensa que apoiava o golpe e que, no entanto, foi depois censurada, porque a liberdade de imprensa é ameaça, mesmo que essa liberdade a gente vá dizer assim “hoje os veículos estão todos alinhados, com uma visão mais hegemônica, blá blá blá”, se a gente fosse ter um discurso bem de esquerda. Mas ao mesmo tempo essa liberdade, as características do campo jornalístico em si desestabilizam a sociedade. Acho que isso é interessante, é um motor de movimento da sociedade. Mas qual que é a função do Jornalismo? Acho isso muito complicado. Não sei pra que serve.
Jornalismo B – De todas as funções que tu colocaste, a imprensa brasileira cumpre isso?
Clarice – Hoje? Acho que às vezes, sim. Dependendo, o que é imprensa brasileira? A grande imprensa brasileira, tá complicada a coisa, por questões materiais. A gente está vivendo um momento, aí não tenho tanta informação, mas que eu saiba tem um momento de aglomeração dos impérios, ou uma consolidação, não sei como se diz isso economicamente falando. Mas a gente tem a compra de uns, há uma boataria agora que o Estadão foi comprado pela Globo. Não se define, cada vez mais tu tens menos donos, e esses veículos estão ficando maiores, então tu vais ter interesses… E mais do que isso, essas empresas estão ligadas a outras áreas, e essas outras áreas também definem interesses dentro da linha editorial da empresa. Então ali a questão fica meio complicada. Isso e mais algumas questões relacionadas à própria formação do jornalista hoje, que eu acho que deveria investir mais na questão mais crítica mesmo, que acho que deixa um pouco de lado. E aí é meio complicado, porque a crítica me parece que está errada no jeito que ela é articulada nas faculdades. E o próprio tipo de configuração do profissional, que o jornalista é um cara mais individualista, mais personalista, e a gente vive um momento assim. Mas acho que a gente tem experiências muito interessantes, e aí dizendo a mesma coisa de sempre, a Piauí, a Caros Amigos, a própria Carta Capital, e é interessantíssimo que a Carta Capital seja encabeçada por um cara como o Mino Carta, que vai revolucionar a imprensa brasileira com a Veja, com o Jornal da Tarde, e que agora tem uma experiência super interessante, super nova, super legal, que é a Carta Capital. E os blogs, os sites, acho que tem coisas legais acontecendo. Acho que é um momento de transição, vamos ver o que vai acontecer.
Jornalismo B – Como tu achas que os jornalistas que não nasceram na era da internet lidam com os blogs? Como eles percebem o surgimento e o crescimento dos blogs?
Clarice – Acho que eles percebem como uma oportunidade, porém sem entender exatamente as possibilidades que a linguagem dá, coisa que a geração de vocês, ou até, por exemplo, a geração dos meus filhos, vai entender de uma forma muito mais simples. É uma tecnologia que apresenta, e cada vez mais, toda semana, todo mês, uma série de mudanças e possibilidades novas. E o que eu acho que esses jornalistas antigos… Antigos!? Os jornalistas da minha geração, da geração um pouquinho anterior utilizam isso muito espertamente. A gente tem aí uma quantidade de blogs que tem o pessoal ganhando dinheiro com blog, muito jornalista ganhando dinheiro com blog porque eles vêem isso como um meio, e vêem que é um meio barato, não gasta pra fazer. Mas acho que ainda não se tem a noção das grandes possibilidades que têm de comunicação disso. Então acho que isso vai mudando. Agora, não menosprezem os jornalistas antigos, eles são espertos, eles sobrevivem por isso.
Jornalismo B – Até que ponto o Jornalismo é uma forma de se fazer história?
Clarice – Depende de qual é o conceito de história. Todos nós fazemos história. A gente, nesse momento, está fazendo história. O jornalista, tem aquele texto, não sei se tu estavas na aula de seminário que a gente trabalhou com um texto, isso é pra sabotar a entrevista de vocês, a gente trabalhou com um texto que é “Os jornalistas fazem história”, no qual o cara analisa o trabalho dos jornalistas do Watergate. E ele vai dizer isso, que na verdade o jornalista é um ator da história, ele age sobre a história. Pra mim fica muito difícil não estabelecer a dicotomia jornalista/historiador. O historiador, pelo contrário, ele é um cara que… Na verdade o historiador também faz história, no momento em que ele cria um conceito, ele dá um sentido pro tempo passado. Um historiador que escreve hoje sobre Jango, sobre Getúlio, está fazendo história porque ele dá um sentido pro passado. Ao dar um sentido pro passado, ele vai agir sobre o presente. Mas o jornalista age sobre o presente, diretamente, ele constrói a história. Isso que é interessante, por exemplo, ontem participei de uma banca que era um trabalho muito bom que falava sobre como a Veja constrói a imagem do Hugo Chávez. Então ao construir essa imagem, ela está fazendo história, porque não existe… Essa é uma questão que eu às vezes me bato um pouco na área da comunicação. Não existe uma essência do Hugo Chávez, existem vários Hugo Chávez. Isso não é pós-modernismo, não sou adepta desse tipo de visão. Então as várias formas, as várias versões do Hugo Chávez, uma delas é a Veja. A gente tem permanentemente no presente um choque de visões. E o Jornalismo atua diretamente nessa luta, que é de articulações.
Jornalismo B – Os historiadores hoje usam muito o jornal impresso do passado como fonte pra pesquisas históricas. Tu achas que, com a quantidade absurda de informações que a gente tem hoje, isso vai facilitar ou dificultar o trabalho dos historiadores no futuro?
Clarice – Isso já é uma coisa bem discutida, tem até um texto do Hobsbawm, quer dizer, tem vários textos, eu me lembro agora de um do Hobsbawm sobre história do presente que ele fala isso. Tu tens uma quantidade imensa de informação e uma dificuldade muito grande de articular essas informações. Enquanto isso, tu vai estudar a história colonial e tu tens dois, três documentos, e aí tu resolves isso. São dificuldades diferentes. A pessoa, o especialista tem que ter instrumentos e tem que pensar formas de lidar com isso diretamente. Por um lado sempre é bom ter um monte de fontes disponíveis, isso facilita, quer dizer, isso não facilita o teu trabalho, mas isso permite o teu trabalho. Mas por outro lado tu tens que saber articular elas, senão tu vais fazer uma colagem que não é essa a questão, não é isso que interessa.
Jornalismo B – Há poucas décadas os jornais impressos eram quase panfletos de determinados partidos ou ideologias. Hoje os jornais alegam que isso mudou. Realmente mudou e a mudança editorial é positiva ou negativa?
Clarice – Bom, tu estás me pedindo pra julgar a história. Isso o jornalista pode fazer, o historiador não faz, não julga a história, não somos juízes. Mas enfim, acho que tem que pensar no que leva a esse tipo de mudança. Tem uma sociedade que mudou naquele momento e pra qual aquele tipo de veículo, aquele tipo de modelo, de paradigma do Jornalismo não funcionava mais. Porque não atendia as possibilidades que estavam abertas naquele momento. Eu acho que é difícil, que seria muito anacrônico da minha parte fazer uma comparação entre hoje e aquele momento, a não ser no sentido de que sim, a imprensa que a gente tem hoje não atende mais as possibilidades do tempo que a gente está vivendo, há um desequilíbrio nisso. Então, por isso me parece, na minha humilde opinião, que tu tens uma tendência muito grande, por causa da evolução da técnica, por essa questão dessa descrença nesse paradigma informativo que tu estás manifestando e que a gente vê claramente nos papos com as pessoas um pouco mais bem informadas. O jornalismo informativo não dá mais conta de responder as questões da sociedade e teve um momento em que ele dava. Então eu acho que o que a gente pode fazer de paralelo entre esses dois momentos é isso. É o momento em que eu estou esperando uma mudança, e acho que a gente tem alguns programas que tentam aliar já o informativo com o opinativo, e criar uma outra coisa. E talvez a saída seja por aí, ou talvez a saída seja uma outra coisa. Os próprios blogs, alguns aliam esse tipo de coisa.
Jornalismo B – Qual é o futuro do jornal impresso?
Clarice – Não sei, não tenho bola de cristal, não tenho a mínima idéia.
Jornalismo B – Nenhum palpite?
Clarice – Não sei, acho que a idéia é que se segmente, que cada vez fique mais voltado pra grupos específicos. Acho que aí tem outras questões que é a coisa da leitura. Como é que vai ficar a nossa leitura? A gente vai continuar lendo um livro? Como vão ser, por exemplo, as novas telas? Eu já vi matérias sobre, não sei exatamente o nome, mas uns computadorzinhos, umas coisas que tu lês diretamente numa telinha pequena que tu andas… Jornais e tal, o New York Times. Então isso depende dessas coisas técnicas. E depende de quanto o jornal conseguir manter a sua utilidade. Porque basicamente é isso: quanto mais útil for o jornal, mais ele vai ter leitura.
Jornalismo B – Tu trabalhas muito com futuros jornalistas, como professora. Dentro dessa tua experiência, como tu vês o futuro do Jornalismo brasileiro?
Clarice – Ah, eu vejo muito bem, sou muito otimista, porque eu gosto muito dos meus alunos, acho que eles são muito inteligentes, espertos. Fico muito feliz quando eles conseguem tocar pra frente experiências. E acho que o papel do professor, muito mais do que ensinar, é mostrar uma série de coisas e fazer as pessoas terem confiança e tocarem pra frente. Acho que hoje em dia o papel do professor, pra essa geração, que é uma geração muito insegura, é fazer as pessoas confiarem no seu taco porque são boas. Se os jovens de hoje confiarem em si e resolverem tomar a rédea da coisa, acho que vai ser bem legal.
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